Glória era uma solteirona sem escrúpulos, habituada a erguer a sua amurada, por entre o desejo mal amanhado dos putos do bairro. mulher de sete vezes mil, vidas que se subtraiam em camadas como crostas num moribundo. Fui eu quem me fiz assim. - um pouco de respeito, porque mereço! só para não me dar a uma solteirona qualquer. desconfio das solteironas. quem não desconfia? mulher só, homem em trabalhos. Das sobras da vida nunca hei-de comer. nunca me faltou alimento para a carnes e os meus tremores são perenes. antes a mão que mal acompanhado. esgalho uma pívea para a escuridão e afasto a culpa para um canto qualquer. depois, limpo da mão o meu secreto exorcismo e desço à terra para me entreter no esquecimento. ás vezes chego a conseguir, ás vezes não. sempre. foda-se. não valho nada. pensava que o difícil fosse a primeira vez. como todas as primas tentações por debaixo do alcatrão da consciência: a primeira mentira, a primeira queca, a primeira queca que é uma mentira, a primeiro risco, a primeira queda, a primeira ressaca, a primeira relação, a primeira solidão. O primeiro impulso de morte e o olhar dos outros. O preço do respeito ou a vã glória de ser homem.
Foi a primeira vez.
A porta estava aberta, sempre estivera. Entrei, acerquei-me das escadas e olhei para cima. um punhado de degraus gastos por outros passos separava-me do meu destino ansiado. Inspirei toda a coragem que era preciso e avancei temerário num frenesim de sensações sobrepostas. Havia vozes surdas a pairar no silêncio das paredes e que, à medida que subia, se transformavam em sons de animais bravios
A porta estava aberta, sempre estivera. Entrei, acerquei-me das escadas e olhei para cima. um punhado de degraus gastos por outros passos separava-me do meu destino ansiado. Inspirei toda a coragem que era preciso e avancei temerário num frenesim de sensações sobrepostas. Havia vozes surdas a pairar no silêncio das paredes e que, à medida que subia, se transformavam em sons de animais bravios
o gume resvalou para o seu frenesim mudo transpondo, á vez, a epiderme, a derme, os vasos sanguíneos, até á carne. a minha cabeça em tumefacção interna, á beira do colapso. sem respirar. eu e ela. o mundo suspenso lá fora. um corpo exaurindo o derradeiro suspiro. um olhar vítreo. e eu sem saber de mim. sem saber o que sentir. nada. nem sequer a razão válida que me empurrou para o gesto. a primeira vez, da próxima tudo seria menos romântico. ultrapassado o desafio, podia finalmente fazer parte por direito próprio do restrito grupo dos capazes, assim lhe chamava, com singeleza perturbante, o Presidente, hoje como antes e para sempre - ámen - senhor do destino do pequeno império no qual se haviam formatado os gangs da Cidade. Como um verdadeiro líder, só se fazia rodear pelos capazes, como é próprio das leis da natureza e estes, como eu, fazendo por merecer, A Glória estava viva e bem viva, pulsando em minhas mãos como sangue meu. em sangue, transformada em troféu numa bandeja de prata.
Glória era nome de mulher, sufragada no desejo maior de ser capaz. a primeira vez pela ultima vez, porque só sacrificamos o verdadeiro amor. por aqui me vou valendo da memória, para negar a solteirona sem escrúpulos que insiste em bater á porta.
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