quarta-feira, 18 de maio de 2011

O bigode e a saudade

Anda esta gente amestrada, induzida a comer, calar e confiar nos rufiões da nação, mascarados de poder para poder fazer a seu belo prazer, o que der mais jeito na parasitária vontade de uma vontade maior. Este país é do caraças! Nação única na capacidade de inventar revoluções florais, no meio termo próprio dos cobardes, comodamente entrincheirados no assim-assim - tudo está bem quando não acaba mal. O povo é sereno, lá dizia o outro. O corno é manso. Assim se vai cantando o fado como quem purga a dormência entranhada, a fazer de conta que se caminha em frente quando, em verdade, se arrasta lado a lado com a delinquência legalizada. Salvo conduto a São Bento, que num país católico é natural e fica bem.
Quando o dono não faz a vontade ao cão - Aqui d'el Rei! - dói muito quando nos roem os ossos com mais fragor. Então é que é falar de justiça, em mesas de café, entre um digestivo e dois dedos de conversa. Apre, que é demais o que para aí se especula. Especula-se de sacos azuis, de compadres e de comadres, do jeito que se deu, aqui e ali, como quem ajeita a mão no bolso. Especula-se a liberdade à vontade do freguês - quem dá mais? - ao saber dos humores daqueles que mandam no grande pátio da indiferença. Especulam-se os direitos e os deveres, mais aqueles do que estes. A justiça está cara, especula-se - quem dá mais?
O corno é manso e assim se vai cantando e rindo, o fado; claro está; para exorcizar a saudade da esperança, tricotada em etéreos pronúncios de causas maiores. Das palavras que o vento leva, apenas uma subsiste, rija como uma escára viva: a crise, e essa, arrisco, é mais nossa que a própria saudade, tão portuguesa que nem lhe falta o bigode. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

suficiente mais, ou menos

- que horas são?
- é tarde.
- muito tarde?
- o suficiente
- suficiente mais, ou menos?
- depende do que estiveres a falar. do fim da noite ou do principio da madrugada.
- suficiente mais...
- sem olhar para trás. nunca me surpreendeste.
- não precisas magoar-me
- não precisas da sinceridade, queres dizer.
- nunca apreciei a sinceridade. é apenas uma palavra entre olhares.
- o que vês no meu olhar?
- pouco. és como um pano cru quando fitas o chão.
- que horas querias que fossem?
- não respondeste á minha pergunta.
- eu respondo a todas as tuas perguntas. é o que tenho feito desde sempre.
- tu nunca respondes ás minhas perguntas.
- se é isso que pensas.
- os homens são tão minimalistas que chegam a ser exasperantes.
- não confundas bom senso com minimalismo. nem sempre a retirada significa a assumpção da derrota.
- e um milhão de retiradas podem nem significar uma guerra.
- poupa-me as palavras vagas.
- ao menos uma vez podias dizer que me odeias.
- e se dissesse que te amo?
- negá-lo-ia.
- porquê?
- para te ouvir dizê-lo de novo. soa mais sincero da segunda vez.
- ?
- e se o voltasses a repetir soaria a uma desesperada tentativa de credibilidade.
- ás vezes não sei do que falas.
- como quem procura apanhar uma sombra entre os dedos?
- o jogo foste tu quem o inventou. não me parece justo que escondas as suas regras.
- se soubesses as regras não fazia sentido disputarmo-nos.
- és capaz de ter razão, mas neste jogo quem é o jogador e quem é o peão?
- jogador e peão, á vez, de acordo com o impulso.
- o melhor é jogar.
- sim, é hora certa.

Glória

Glória era uma solteirona sem escrúpulos, habituada a erguer a sua amurada, por entre o desejo mal amanhado dos putos do bairro. mulher de sete vezes mil, vidas que se subtraiam em camadas como crostas num moribundo. Fui eu quem me fiz assim. - um pouco de respeito, porque mereço! só para não me dar a uma solteirona qualquer. desconfio das solteironas. quem não desconfia? mulher só, homem em trabalhos. Das sobras da vida nunca hei-de comer. nunca me faltou alimento para a carnes e os meus tremores são perenes. antes a mão que mal acompanhado. esgalho uma pívea para a escuridão e afasto a culpa para um canto qualquer. depois, limpo da mão o meu secreto exorcismo e desço à terra para me entreter no esquecimento. ás vezes chego a conseguir, ás vezes não. sempre. foda-se. não valho nada. pensava que o difícil fosse a primeira vez. como todas as primas tentações por debaixo do alcatrão da consciência: a primeira mentira, a primeira queca, a primeira queca que é uma mentira, a primeiro risco, a primeira queda, a primeira ressaca, a primeira relação, a primeira solidão. O primeiro impulso de morte e o olhar dos outros. O preço do respeito ou a vã glória de ser homem.
Foi a primeira vez.
A porta estava aberta, sempre estivera. Entrei, acerquei-me das escadas e olhei para cima. um punhado de degraus gastos por outros passos separava-me do meu destino ansiado. Inspirei toda a coragem que era preciso e avancei temerário num frenesim de sensações sobrepostas. Havia vozes surdas a pairar no silêncio das paredes e que, à medida que subia, se transformavam em sons de animais bravios  
  o gume resvalou para o seu frenesim mudo transpondo, á vez, a epiderme, a derme, os vasos sanguíneos, até á carne. a minha cabeça em tumefacção interna, á beira do colapso. sem respirar. eu e ela. o mundo suspenso lá fora. um corpo exaurindo o derradeiro suspiro. um olhar vítreo. e eu sem saber de mim. sem saber o que sentir. nada. nem sequer a razão válida que me empurrou para o gesto. a primeira vez, da próxima tudo seria menos romântico. ultrapassado o desafio, podia finalmente fazer parte por direito próprio do restrito grupo dos capazes, assim lhe chamava, com singeleza perturbante, o Presidente, hoje como antes e para sempre - ámen - senhor do destino do pequeno império no qual se haviam formatado os gangs da Cidade. Como um verdadeiro líder, só se fazia rodear pelos capazes, como é próprio das leis da natureza e estes, como eu, fazendo por merecer, A Glória estava viva e bem viva, pulsando em minhas mãos como sangue meu. em sangue, transformada em troféu numa bandeja de prata.
Glória era nome de mulher, sufragada no desejo maior de ser capaz. a primeira vez pela ultima vez, porque só sacrificamos o verdadeiro amor. por aqui me vou valendo da memória, para negar a solteirona sem escrúpulos que insiste em bater á porta.

As aventuras de um asno no país das bananas

Garcia era um asno habituado a avaliar a periferia do seu umbigo com a dolência própria dos homens pequenos. Lá detrás do sol posto, de onde vinha, estes homens não sabiam dançar, por conseguinte, lá dizia o ditado, sobrava-lhes o jeito para a velhacaria.
Este asno, como outros da espécie humana, abarcara a vida ao sabor da maré, escorrendo para o baçio do mundo onde se molda a merda em esfíngicas figuras de poder orgânico. É sabido que, quem souber ler a cartilha está capaz de se tornar sábio de esperteza saloia. E assim se fazem os doutores, pois que a vida é, de entre as ciências, a mais complexa e por isso digna de tão ilustre incómio. Lá na cidade onde desaguou, Garcia soube mexer-se, subindo a vida a pulso estendido; que as mãos guardava-as no bolso para suportar a curva das costas. Ó senhor doutor como está? E a familia? Com certeza senhor doutor, disponha... No aproveitar é que está o ganho pois nunca se ouviu que fosse pecado reciclar o oportunismo das virtudes. Garcia faz escola numa repartição pública, aquele lugar maldito e muito afamado pela malidicência dos contribuintes, já de si, fodidos da vida por ter de alimentar o burro a pão de ló e muito mais quando chega a sua vez de se chegar à frente por notificações, citações e outros palavrões disfarçados por algaraviada legal. Pois quando assim é, como é de lei, a outra, a da vida, pedem-se meças a um conhecido de um conhecido para uma almoçarada com Garcia e como uma mão lava a outra, faz-se um jeito por um alçapão legal e feliz vai o andor na procissão da nação com o asno à frente a empunhar o estandarte e os pequenos velhaquinhos a perseguirem seus passos. Assim foi, assim é e assim será, neste país de gente séria. Ámen!

A puta da crise

A culpa foi, é e será sempre da crise, essa mulher de má vida e de costas largas que se deixa manipular como subterfúgio para os desastres induzidos por uma classe de profissionais do nada.
Não, não é incompetência. Estes senhores, como outros que brincaram ao poder no passado são competentes na arte do caciquismo e do despudor. brincando aos gangs na vida real daqueles a quem os outros confiaram o poder, contradizendo as mais elementares regras do serviço público. Estes são os despotas de hoje, aprendizes de feiticeiro de uma cartilha da história que nada trouxe de novo a um país cuja herança histórica deveria iluminar o caminho das gerações vindouras mas que mais não faz do que se servir do alçapão dourado das prendas e do compadrío dos yes men de um punhado de pulhas que, travestidos de governo se entretêm a jogar à política numa terra de surdos mudos habituados à sodomia e à palmadinha nas costas sob o subterfúgio do sacrificio em prole de uma causa maior cujo horizonte insiste em se afastar para além da cortina de fumo do mundo civilizado.
A culpa é nossa, deste assobiar para o lado que nos parece mais confortável nesta demanda diária pela sobrevivência enquanto se adía o progresso da economía desenvolvida e desafogada. calemo-nos pois porque culpados somos nós todos. Enquanto não brotar de nós a revolta, expurgarmos o vírus do oportunismo e transformar-mos a vergonha na alavanca para a reforma definitiva dos costumes que alimentam os parasitas de uma carcaça secular e moribunda.Enquanto calarmos os gestos da nossa revolta, enquanto a acção for pólvora seca, os mentirosos a quem oferecemos a chave da nossa dispensa, continuaram a comer ás nossa custas e a gente a comer o pão que o diabo amassou.